3.12.09

o amigo imaginado II

para lucas formaggini, que me emprestou a imaginação

ele era pequeno, parrudo e estava quase sempre quieto no canto da sala. para muitos, um banco, um toco de madeira. para mim, um pequeno indivíduo, ao mesmo tempo gracioso e esquisito, interlocutor favorito dos longos dias de ócio. era impossível ficar entediado ao seu lado. ou triste. fosse caso, o banquinho logo me encarava com aqueles olhos de madeira, fundo nos meus castanhos, e me roubava um sorriso, gargalhadas. dono de um senso de humor único, me ensinou desde cedo a ver graça onde ninguém mais via. escada, tomada, geladeira. estar em casa era uma aventura. um dia recebemos a notícia, o noticiário da TV em alarde, de que um furacão passaria pela cidade. fechar as portas, as janelas abertas em frestas, fitas coladas nos vidros. agora era a espera ansiosa, todos tensos, protegidos em um canto da casa. até que eu lembrei do banquinho, coitado, sozinho no terraço, abandonado num canto qualquer. eu precisava salvá-lo, meu banquinho. e mamãe dizendo que não precisava, que era perigoso subir ao terraço, o furacão vem vindo, meu filho, o banco é forte. e não tive escolha. ele é forte, eu repetia. já sentia a pontada da perda no peito, os olhos lacrimejando na espera, como uma notícia de morte que chega antes dela. mas tudo continuou em silêncio, e a moça do noticiário disse, contente, que o furacão tinha pego um desvio qualquer antes de chegar à cidade. imaginei ele girando mar adentro, dançando alegre pelas águas, e o sorriso com o qual o banquinho me esperava, sozinho, quieto, em um canto qualquer do terraço.

3 comentários:

Lepz disse...

banquinhos, totalmente. muito melhores do que muita gente que eu conheço.

joana luz disse...

que lindo, di!

inescrituras disse...

Borges e sua irmã - que durante grande parte da infância não saiam de casa e, por isso, tinham poucos amigos - inventaram dois amigos imaginários: Quilos e O Moinho de Vento. Quando se cansaram dos invisíveis colegas, disseram à mãe que tinham morrido.