19.12.09

o amigo imaginado III

pra aline borghoff, que me emprestou a imaginação

no quarto de menina que cresce pra vida - portas fechadas, janelas escancaradas - lá estava ele. quando proibida de sair de casa, condenada à inexistência me sentia, alheia, sozinha, enquanto o mundo lá fora seguia, carregando minhas paixões, platônicas que fossem, às minhas costas. foi assim que o descobri, sentado no pufe do lado da cama, fazendo dele cadeira cativa. e lá fui deixando que ficasse, dia após dia. assim como as pilhas de papel que cada vez mais se acumulavam no fundo da gaveta que eu fazia de esconderijo. explico: mesmo que de corpo presente, era por escrito que eu me comunicava com ele. kurt, seu nome - coisa de garota. no esforço por dar sentido ao que se embrulhava na cabeça, as mãos percorriam as folhas coloridas preenchendo lacunas e desemaranhando pensamentos, feito pente fino. cartas, como poucas, que não pediam respostas. bastava que fossem escritas. mas de repente eu tinha crescido, transformando kurt em relíquia da juventude. é preciso substituir fantasias. nunca mais escrevi cartas.

2 comentários:

Aline disse...

aah Di, que lindo ver meu Kurt dentro de um texto bonito seu! aposto que ele não imaginava que voltaria a aparecer pra mim, quanto mais pros outros...
=]

Lepz disse...

amigos imaginários, quem kurt? (foi irresistível...)