30.6.16

tinha que encontrar um jeito
de não te arrancar um pedaço
com a mordida, de não
te cegar com essa luz que bate
que vem de não sei onde
de mim, de te botar no colo
de te dizer vai ficar tudo bem
tá tudo bem

18.4.14

abrir a porta do apartamento
encontrar o gato enrolado
no canto do sofá vermelho
você fumando na varanda
me conta as novidades do dia
chegar em casa todo dia
sabendo exatamente o que
vou encontrar e querer todo dia
chegar em casa e abrir a porta
e encontrar você e o gato
me esperando para contar as
novidades de sempre, todo dia

9.10.13

araruama

nas calçadas do largo do machado
o plec-plec das bolinhas bate-bate
quicando nas mãos dos camelôs
as bolinhas bate-bate voando
laranjas pelo céu de araruama
em mil novecentos e noventa
cinco piruetas e um mergulho
lá no fundo da lagoa salgada
a minha infância e os meus braços roxos
da cor das bolinhas bate-bate
correndo pro fundo, de olhos abertos
ardendo de dó, de sal e de sol
(não tive tempo de me despedir)
e mergulho em vão pra procurar
as bolinhas bate-bate se escondendo
ali onde mais tarde jogamos
as cinzas da vovó e mais saudades

9.11.11

pensei em te mandar uma música brega

pensei em te mandar uma música brega
pra dizer que estou pensando em você
mas achei melhor ficar na minha
não vamos gastar a saliva dos outros
talvez pensando bem forte
quem sabe eu perturbe seu sono
ou as paredes do seu apartamento
o quadro que eu te dei vai sair voando
seu prédio vai desmoronar no chão
pataplóft, eu pensando em você

4.7.11

das fotografias não tiradas

(1) um travesti, vestido com uma saia de bailarina multi colorida e um top claro, se equilibra com rara delicadeza no sapato de salto tentando se ver no reflexo do vidro de um restaurante a quilo.

(2) uma menina albina está de pé no metrô. sua roupa é toda colorida, contrastando com a pele e o cabelo preso por tranças e um rabo de cavalo. ela segura, com uma das mãos, a barra metálica do vagão e, com a outra, um bombom de chocolate branco, já sem o papel que antes o envolvia. zoom no rosto: o bombom é exatamente da cor do seu cabelo.

(3) em frente à faixa de pedestres, pai, mãe e quatro filhas esperam alegres o sinal fechar. três delas, trigêmeas de cerca de 17 anos, têm o cabelo comprido preso no alto da cabeça por um rabo de cavalo, vestem havaianas, bermudas jeans do mesmo modelo e blusas de alça coloridas, cada uma de uma cor: rosa, amarelo e laranja. duas delas estão de mãos dadas, exibindo pra si e pra mundo sua proximidade. elas parecem não fazer a mínima ideia de que são pessoas diferentes.

(4) na mesa de uma lanchonete árabe estão sentadas quatro pessoas. de costas pra mim, dois homens; de frente, duas mulheres. uma delas estica o braço e mostra para um dos homens, que traz no corpo um suspensório verde que parece ter estado sempre lá, o retrato que acabara de tirar dele. de forma que a imagem do rosto do homem e suas costas, também verdes, se exibem ao mesmo tempo para a câmera que não tenho em mãos. 

(continua...)

17.6.11

buquê

é fim de tarde e venta em paris
entramos no supermercado
e estamos perdidas entre
os produtos e suas legendas
estrangeiras atrás do jantar
eu estou congelando com
queijos nos braços, você caminha
desde o outro lado ao longo
das fileiras de prateleiras alegre
com uma alcachofra na mão:
noiva em direção ao altar

29.5.11

inverno

catarina toda vez
que sente muita saudade
tira uma fotografia
em branco e preto
da sua janela catarina
cola todas as suas fotos
nas paredes do quarto
pra preencher o espaço
que falta catarina
quando chega a noite
costuma ter calafrios
com o vento que vem
de tanta janela aberta

26.1.11

posto seis

pra minha avó

a avenida nossa senhora de copacabana
quando olha pra mim desse jeito
parece que vai chorar