a cidade está morta
por trás das luzes de lanternas
que acariciam as paredes
dos prédios, esses monstros
sem pés e sem braços
mas com muitos olhos de vidro
e um mundo escondido
em cada: espio desatenta
cores de paredes e cortinas
com as luzes das velas
fica tudo dançando
sinfonia para homens bons
13.11.09
23.10.09
sala de estudos
eu posso até suportar
essa frieza
as paredes brancas subindo
até o teto, minha atenção
dispersa, a hora
que passa o corpo que fica
uma cadeira dura
uma carteira
onde tento escrever
barbaridades voam
da ponta do meu lápis
que eu nem ligo
até esse excesso de sol
na janela ou o silêncio grosseiro
ecoando as retinas
que cambaleiam
vontade de sair correndo
de dar uma festa
eu posso até fingir que não ligo
pra nada disso
mas tire esses olhos redondos
dos meus
evasivos redondos
essa frieza
as paredes brancas subindo
até o teto, minha atenção
dispersa, a hora
que passa o corpo que fica
uma cadeira dura
uma carteira
onde tento escrever
barbaridades voam
da ponta do meu lápis
que eu nem ligo
até esse excesso de sol
na janela ou o silêncio grosseiro
ecoando as retinas
que cambaleiam
vontade de sair correndo
de dar uma festa
eu posso até fingir que não ligo
pra nada disso
mas tire esses olhos redondos
dos meus
evasivos redondos
9.10.09
plumbagina
mandar cartas é como
demarcar a distância
dobrar a ansiedade
em mil, contar pautas
na espera, ensaiar a
caligrafia perfeita
imaginar cegonhas, pombas
corujas e greves de correio
encenar conversas
de olhos que nunca se tocam
ouvir a fricção do grafite
na folha, gastá-lo
é olhar por muito tempo
uma paisagem na janela
é girar em falso
demarcar a distância
dobrar a ansiedade
em mil, contar pautas
na espera, ensaiar a
caligrafia perfeita
imaginar cegonhas, pombas
corujas e greves de correio
encenar conversas
de olhos que nunca se tocam
ouvir a fricção do grafite
na folha, gastá-lo
é olhar por muito tempo
uma paisagem na janela
é girar em falso
8.10.09
Coreografia
As pontas dos dedos desfilam obsessões sobre a mesa. Batucadas silenciosamente desenhadas, unhas roídas nos cantos, dedos um pouco compridos demais. Os contornos de um filme mudo e em câmera lenta, sublinhada a intenção de um gesto, o peso do corpo nas pontas dos dedos. Cabelos longos. Sob a mesa, as pernas dobram e desdobram insinuando uma coreografia ensaiada: deslizar sobre o piso de taco, dobrar as esquinas do apartamento, saltar pelos móveis, sofás, estantes e pilhas de livros, lançar-se em giros, piruetas, evitar quedas, aterrissar e fim. Findo o ritual imaginado, o tronco se permite uma leve inclinação em sinal de reverência, espécie de auto-reconhecimento embalado ao som da felicidade secretada pelas pernas embaixo da mesa. As mãos se dedicam a aplausos silenciosos e – não é possível evitar - à mania despropositada de verter todo seu peso nas pontas dos dedos. Roídos demais, compridos demais, ansiosos demais, distraídos nessas pequenas obsessões. Depois, caminhar em linha reta até o quarto e entregar-se ao sono com a sensação diária de missão cumprida, dez em ponto.
20.9.09
Primeiro plano
O pó de café espalhado contrasta com o mármore branco da pia. Leves manchas, rachaduras. No bule a água dança, cada vez mais rápido, como se precipitasse um salto derradeiro. Com dois dedos gira o círculo de plástico, o fogo apaga, a água aquieta – finda o espetáculo, balé borbulhante, o silêncio que aguarda as palmas. Despeja lenta a água que leva consigo o pó, líquido marrom e amargo, mergulho certeiro na xícara vermelha. Segura-a, gira o corpo, sai pela porta da cozinha em passos silenciosos, leves, quase calmos. Senta agora na poltrona - as pernas dobradas frente ao corpo, os pés apoiados no assento de couro, os cabelos presos sobre a nuca, a xícara envolta pelas mãos como num abraço, os olhos miram atentos o líquido que, aproximando-se dos lábios semi-abertos, aguarda, ansiosamente, o primeiro gole, o primeiro toque da língua.
16.9.09
my blueberry nights
terça-feira é madrugada
nesse apartamento de janelas
grandes de oitavo andar
enquanto o vizinho do lado cozinha
um cheiro indecifrável e faz
ruídos estranhos nas paredes
eu despisto o sono ouço o vento
que bate forte vou pra varanda
assistir a chuva chegar
nesse apartamento de janelas
grandes de oitavo andar
enquanto o vizinho do lado cozinha
um cheiro indecifrável e faz
ruídos estranhos nas paredes
eu despisto o sono ouço o vento
que bate forte vou pra varanda
assistir a chuva chegar
na moldura
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