18.5.10

retrato

já um pouco atrasada, como de costume, bato a porta tentando conter o ar de estranhamento que me causa a imagem daquele senhor de cabelos brancos, blusa de gringo e um pouco alto demais pro pequeno carro que dirige, enquanto ajeito no banco o excesso de bolsas e apetrechos que levo comigo. tentando escapar do silêncio constrangedor e num surto de simpatia inesperada, certa hora puxo conversa. sobre o trânsito, porque sou clichê. e o senhor se revela surpreendentemente simpático e interessado do diálogo, embora não tão extrovertido e hábil na arte de papear. não me contenho e então pergunto, curiosa, sobre o acento estranho, e ele, agora se permitindo carregar no sotaque, responde: da terra pátria deste brasil. como se fosse uma pegadinha, que me obriga a responder, em alto e bom som: portugal. com um ar prazeroso e melancólico o homem me ouve repetir o nome da sua terra pátria a seu pedido, e fico com a impressão de que ele queria que eu a dissesse e redissesse exaustivamente, como se assim, de certa forma, ele se encontrasse, em meio às eternas curvas de copacabana através das quais guiava seu carro. chegou no rio há 55 anos, na época com seus 16, fugindo da obrigação de lutar na guerra de independência das colônias africanas. porque na guerra, ele diz, é matar ou morrer. o pai ficou lá. mas a terra dele é o brasil, é o rio de janeiro. saio com pressa do carro e o senhor me deseja sorte na vida de fotógrafa. só mais tarde me dou conta do retrato não tirado. e aqui, agora, tento esboça-lo como posso, as lentes me fitando ao canto.

2 comentários:

inescrituras disse...

inês curtiu isso.

Manu disse...

manu também.